amores expresos, blog do Amilcar

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A cidade, ainda



Tento escutar a cidade, tento ouvir sua voz, seu lamento, seu grito, seu sussurro, tento descobrir o que ela tem a me dizer. Ando muito, olho, agarro-me aos detalhes. O que apreender ? O que vai ficar ? Daqui a alguns anos vou dizer « quando estive em Istambul em 2007… » , e o que virá à minha mente ? Que imagem ? O que será Istambul para mim ?

Como de um livro, como de um filme, impossível guardar palavra por palavra, cena por cena. O que fica é sempre uma síntese, uma idéia, uma sensação — um resumo, se quiserem. Leio Istambul, assisto Istambul, e o que leio e vejo de alguma forma já estavam escritos em mim. Não é preciso dizer que uma idéia, uma sensação, um resumo, uma leitura serão sempre particulares e muito pessoais. Mas digo : uma leitura será sempre particular e muito pessoal. Sem muito pôr a culpa na minha memória já combalida pelos anos e a vagabundagem mental a qual me entrego com freqüência e imenso prazer, não são raros os livros que li dos quais não me lembro rigorosamente de nada. De outros a lembrança é tão vaga e quase sempre tão distante do que diz deles a luminosa orelha lavrada por algum ilustre escritor ou pelo próprio autor temeroso da incompreensão do mundo e disfarçado de « os editores ».

Mas sempre o que fica é o que fui capaz de encontrar ali, o que estava, de certa forma, reservado para mim.



A Istambul que leio me reserva coisas que talvez eu não encontrasse em outros lugares, mas que talvez outros viajantes tampouco encontrariam aqui, em Istambul.

O que quero dizer é que de um encontro são no mínimo duas partes que participam. Você não vai encontrar alguém ou alguma cidade. Vocês vão se encontrar, e nisso está implícito o que cada um pode (ou quer) e vai descobrir no outro.

Assim como a um livro se chega com sua carga de experiência pessoal, sensibilidade e centros de interesse, também em uma cidade há uma contribuição do viajante ao que ela vai lhe oferecer. A construção da imagem da cidade é um misto de passividade e atividade. Sem a disposição para a abertura, sem a vontade de receber, não acontece o encontro. E ao mesmo tempo, ninguém é isento de nada, muito menos da sua vivência, isto que lhe serve de base para toda leitura e a partir do que é possível ter acesso a uma coisa nova.

Em relação às cidades, trago uma inscrita em mim e de certa maneira será sempre a partir dela que lerei as outras que vou encontrando pelo caminho. Em Porto Alegre vivi mais de vinte anos, os anos de juventude, e isso a faz, quer eu queira ou não, a cidade que trago em mim. Será sempre a minha referência. Não que seja um permanente elemento de comparação, mas um suporte sobre o qual uma outra cidade pode se assentar e tornar-se visível para mim.

Quando escrevi « Os lados do círculo » eu pretendia que Porto Alegre fosse uma espécie de personagem que desse coesão ao livro, o elemento aglutinador dos contos. Ela está presente do início ao fim, com suas ruas, seus bairros, suas cores, seu sotaque. Foi vivendo Porto Alegre em cada minuto dos quatro ou cinco anos que levei para escrever o livro, foi tendo-a o tempo todo como meu norte que, enfim, escrevi o que para mim seria uma declaração de amor a essa cidade. Porém, coisa curiosa, vários porto-alegrenses que leram o livro vieram me dizer que não reconheciam ali a cidade deles.

Na verdade, sempre que desejarmos escutar o que uma cidade tem a nos dizer, sempre que decidirmos vê-la com nossos próprios olhos — o que não é tarefa fácil, pois as lentes pré-fabricadas são muitas e bastante confortáveis —, é muito provável que o que nos seja revelado dificilmente venha a ser percebido da mesma forma por uma outra pessoa. E a transmissão dessa leitura, ou imagem, ou impressão, ou qualquer outro nome que se queira dar, só será válida quando ela for recebida não como uma maneira de « saber um pouco mais » a respeito dessa cidade, mas como uma versão dela.


Se até aqui, nesse blog, as informações objetivas sobre Istambul são raras é porque julgo-as inúteis.

Mesmo descrevendo Istambul, não sei se eu estaria contribuindo para que vocês conhecessem a cidade. Agora por exemplo, no momento em que escrevo, às cinco e meia da manhã, assisto da minha janela (aliás, tenho uma bela vista desde minhas amplas janelas) uma revoada de gaivotas sobre o Haliç, esse braço de água que divide a parte européia da cidade em outras duas partes e que em português pode ser chamado — mesmo sem o poder de convencimento que em francês tem la Corne d’Or — de Chifre de Ouro. O céu está denso agora, às cinco e meia da manhã em Istambul, há uma bruma não muito espessa, mistura de nevoeiro com poluição, que pela refração da luz do sol se levantando no Bósforo (que vejo também, de um outra janela) ajuda a dar essa cor avermelhada às casas dispostas sobre as colinas que se erguem do outro lado do Haliç.

Uma imagem, uma cena de Istambul, desde a janela do meu apartamento. Mas e depois ? Teria que descrever outra cena, de um outro ângulo. E várias outras, indefinidamente. Mas e depois ? Impossível lembrar cena por cena, impossível recontar cena por cena.




Desde que cheguei mantenho um diário onde anoto religiosamente, com um senso do dever digno de um aluno cdf (que fui, aliás), todos os meus passos em Istambul. Meu objetivo é que eles sirvam de apoio à memória, que sirvam quem sabe para despertar algumas associações durante o espanto de uma leitura afastada no tempo. Da mesma forma já visitei as principais mesquitas e monumentos históricos, do contrário meus amigos franceses não compreenderiam nada na minha volta. São os campeões absolutos na modalidade turismo cultural. Prolíficos produtores de guias de viagem, dedicados visitantes de museus, igrejas, mesquitas, sinagogas, monumentos que eles vão, com uma abnegação comovente, ticando um a um na margem esquerda das páginas do seu guia. Antes de sair de casa, eles lêem sobre a história do país a visitar, a política, aprendem algumas palavras no idioma local, são capazes de falar sobre a culinária do país e citar alguns pratos típicos que vão, invariavelmente, buscar nos menus dos restaurantes indicados pelo Routard, Michelin ou pelo Guide Gallimard, já que o poder aquisitivo pode ser diferente mas o cartesianismo permanece inalterado. Não, eles não compreenderiam se eu dissesse que fiquei trinta dias em Istambul sem fazer nenhum dos circuitos que se « tem » que fazer em Istambul, apenas escutando-a, percorrendo-a.

Aliás, muita gente não compreenderia.




Infelizmente (ou felizmente) quem quiser conhecer Istambul vai ter que vir aqui. Se quiser encontrar o que acha que deve encontrar em Istambul ou confirmar a idéia que tem da cidade, compre um guia, qualquer um serve — os franceses, por exemplo, são ótimos.

Não tenho nenhuma informação para passar, o máximo que posso fazer é levar ao paciente leitor desse blog algumas reflexões sobre o tipo de encontro com uma cidade que um projeto como esse do Amores Expressos possibilita.

Mas como toda paciência tem limite, e como ao invés da cidade já começo a ouvir suspiros, tossezinhas e ruídos de movimentos em busca de uma melhor posição na cadeira, termino aqui este post.

Com a esperança de que ele não tenha ajudado ninguém a saber um pouco mais sobre Istambul.


3 Comentários:

Blogger stennio machado disse...

salve, salve!
bela cidade Istambul.
conheci há poucos dias lendo Orhan Pamuk.
suas imagens resgatam parte do que Pamuk descreve com um olhar melancólico muito particular.
espero pelo romance.
abraço.
stennio machado

21 de junho de 2007 14:05  
Blogger Lussie Uexküll disse...

Amilcar, que animal o seu post, a sua visão particular de se deixar conhecer (e conhecer) uma cidade... Deu muita vontade de ir pra Istambul, muita vontade de dar uma volta no bairro, de pegar o ônibus e reconhecer a minha cidade. Ando com essas vontades faz um tempo, e achei muito lindo o seu post, muito mesmo. E foi um alívio descobrir alguém no Amores Expressos (eu não te conhecia) que foi com esse espírito se encontrar com uma cidade. Parabéns!

3 de agosto de 2007 16:44  
Blogger Ciô disse...

Amilcar,
2 anos depois e seu post ainda tem repercussoes... felicidade de um "blogueiro"...

Pois eh, ha umas semanas atras estive na India e foi uma experiencia marcante, pois, ao contrario do que sempre acreditei, senti-me pessima estando lah.
Hoje, lendo o seu post, me alma me alivia um pouco: Talvez a India tenha me destestado tambem. Nao me sinto mais tao "culpada"...
Gostei muito da sua visao do encontro entre cidade e visitante.

No proximo domingo parto para Istambul...Vamos ver como serah nossa afinidade, espero que encontro e nao desencontro.
Pelo menos, amei a "sua" Istambul...
Abraco.

6 de junho de 2009 17:05  

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