As casas incendiadas de Istambul
Não fica muito claro no livro, pelo menos para mim não ficou, como e por que ocorriam esses incêndios, em que pese as referências às colisões de navios no estreito do Bósforo e às explosões que as sucediam, lançando chamas e estilhaços de ferro incandescente nas yalıs perfiladas junto à margem — essas casas de madeira cujas fachadas retas de dois, três andares abriam suas janelas e sacadas elegantes diretamente sobre o Bósforo, e que em meados do século XIX já serviam de refúgio para paxás um tanto acuados pela leva de imigrantes que chegava à cidade e desencantados diante da decrepitude do império que começava a emitir os seus últimos suspiros.
Bairros inteiros eram devastados, para o êxtase carregado de culpa de todos os habitantes de Istambul — dos paxás otomanos de outros tempos ao próprio Pamuk e seus amigos de juventude — que viam tais incêndios como um espetáculo feérico que servia de pretexto para reunir-se com os amigos e conversar sobre os mais variados assuntos enquanto o fogo iluminava o céu das madrugadas escuras do Bósforo.
Mas um simples passeio pelos bairros mais pobres e decadentes de Istambul em junho de 2007 vai mostrar ao viajante, leitor de Pamuk, que não apenas do Bósforo vinham os incêndios — embora « todo mundo que vive em Istambul saiba que uma calamidade, quando chega, chega do Bósforo ». Restos de incêndio, destroços de madeira carbonizada, fachadas devastadas pelo fogo, as marcas de uma catástrofe que, ainda segundo Pamuk, muitos moradores de Istambul viam como algo impossível de ser evitado, estão por todos os lados, especialmente nesses bairros populares onde a confusão do traçado das ruas cria uma profusão de becos e ruelas que aproximam uma construção da outra, amontoando-as umas sobre as outras, fazendo com que a fagulha de um fósforo acendido numa cozinha possa cair sobre a colcha da cama da casa em frente.
Caminhar pelas ruas de Balat ou Fener, por exemplo, mas também em Dolapdere ou em alguns becos perdidos da descolada Beyoğlu, a vitrine ocidental de Istambul, vai revelar isso que para mim já materializa uma das características mais tocantes dessa cidade : uma decadência — ok, Pamuk — melancólica, mas, mais do que isso, uma decadência que introduz um caráter de espectro na personalidade da cidade.
Dá uma cara para a morte. Morte que pode ser a do passado imperial ou a de uma cultura que no esforço de uma ocidentalização a toque de caixa teria sido substituído por coisa nenhuma (reparem no tom duvidoso dessa passiva). Mas de qualquer maneira a decadência aqui tem claramente uma cara, um rosto, isto que se materializa nas ruínas de uma casa incendiada de Balat, Fener, Draman, Ayvansaray ou qualquer outro lugar de Istambul, seja ele popular ou não, porque, em maior ou menor quantidade, elas estão por todos os seus bairros.
Algumas dessas casas exalam ainda o cheiro da madeira queimada pelo fogo que consumiu seus intestinos a não sei quantos anos atrás, muitas vezes deixando apenas as paredes externas de pé, onde uma fachada invariavelmente enegrecida exibe janelas que são olhos e bocas escuras, gargantas carbonizadas onde restos de mobília repousam petrificados numa espécie de radiografia da morte.
Muitas dessas casas são rostos cansados, rostos de fantasmas que observam o viajante e oferecem-lhe sua tristeza, certo, mas também certa altivez que só a decrepitude consciente e resignada pode conferir.
Não há como deixar de ser solidário a essas construções caindo aos pedaços. Não há como o viajante não se sentir atraído por essas ruínas que parecem lhe falar à sua passagem.
Um pouco em função disso, e se me imagino não num mês de junho de muito sol e temperaturas agradabilíssimas, mas num dezembro de nevoeiro espesso sobre o Bósforo, fica fácil entender a Istambul melancólica de Pamuk, corroída pela hüzün, palavra turca que designa uma disposição sombria coletiva, e incorporando a decadência à sua paisagem num quadro em preto e branco que enternece e exalta aquele que o vê, como sempre acontece nesses casos, através do filtro do tempo e da história.
Mas ao mesmo tempo, pelo menos em junho, Istambul é também muito solar, viva e colorida. E eu não poderia terminar esse texto sem ao menos mencionar a paisagem humana da cidade, que lhe sopra nas veias, e pulsa, construindo um belo contraponto ao estado de abandono presente em toda Istambul e que se materializa nas ruínas de suas casas incendiadas.
Não há como deixar de ser solidário a essas construções caindo aos pedaços. Não há como o viajante não se sentir atraído por essas ruínas que parecem lhe falar à sua passagem.
Um pouco em função disso, e se me imagino não num mês de junho de muito sol e temperaturas agradabilíssimas, mas num dezembro de nevoeiro espesso sobre o Bósforo, fica fácil entender a Istambul melancólica de Pamuk, corroída pela hüzün, palavra turca que designa uma disposição sombria coletiva, e incorporando a decadência à sua paisagem num quadro em preto e branco que enternece e exalta aquele que o vê, como sempre acontece nesses casos, através do filtro do tempo e da história.
Mas ao mesmo tempo, pelo menos em junho, Istambul é também muito solar, viva e colorida. E eu não poderia terminar esse texto sem ao menos mencionar a paisagem humana da cidade, que lhe sopra nas veias, e pulsa, construindo um belo contraponto ao estado de abandono presente em toda Istambul e que se materializa nas ruínas de suas casas incendiadas.
3 Comentários:
Oi, Tito!
Ando acompanhando teus testos sobre Istambul, particularmente, fiquei encantada com a descrição das casas incendiadas, me aguçou a curiosidade, me vi percorrendo as ruelas e sentindo o cheiro destas edificações desprovidas de alguma sorte...
Um grande abraço.
Liliane Valle.
Tito!
Corrigindo... Textos... rssssssssssss
Um abraço.
Liliane.
Oie, apesar de super atrasada, estou amando ler mais sobre Istambul (tenho muita vontade de conhecer a eterna Konstantinopla dos gregos, já cheguei bem perto, em Atenas, que eu simplesmente amo). Também li o livro Istambul e entendo perfeitamente qd vc descreve esse abandono e as casa incendiadas. Um abraço.
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